
A obra “Olhares”, de José Lisboa, apresenta uma série de aspectos que dialogam com a realidade contemporânea, que convive com duas tendências: por um lado, a polarização de ideias; por outro, a tendência da relativização de conceitos e da diluição de fronteiras conceituais rígidas.
Tudo parece meio esquizofrênico nesse contexto, mas o artista consegue articular essas disparidades com uma linguagem pessoal que espelha muito do que vivemos hoje. Isso se faz muito presente, por exemplo, no diálogo entre os rostos, que indicam a vida, e as caveiras, índice da morte.
O jogo de diferenças que convive na obra também pode ser observado em alguns recursos técnicos. Se a as linhas curvas em preto podem ser associadas à morte, as retas vermelhas são, pela cor quente, representações da vida, já que o sangue é aquilo que nos torna humanos, pois também representam a dor do existir.
Apresentada no contexto do tema “Banality of Evil in Our Daily Lives”, o trabalho de José Lisboa lança seu olhar multifacetado sobre um mundo em que o mal pode se fazer muito mais presente no cotidiano do que em um simbólico inferno diabólico pós-vida. É no cotidiano, nas suas dificuldades tangíveis e intangíveis, que o diabo ergue suas tentações.
É curioso, e ao mesmo tempo fascinante, observar como pares como a sedução e a morte também são onipresentes no dia a dia de cada um de nós. Se a beleza extrema pode ter o poder de ser insuportável aos humanos, como ocorria com o poder fulminante da presença dos deuses na mitologia grega, a dor do existir também pode levar ao desespero mortal.
Tudo ocorre sob os nossos olhares, que ganham, nessa ótica, uma dimensão simbólica. Não estamos falando apenas do ver o mundo, mas de tentar decodifica-lo. E isso não é tarefa fácil. Pode gerar dor e luto. E essas instâncias merecem reflexão atenta, como a obra de Lisboa aponta num primeiro momento. Aprofundar essa questão é um desafio permanente.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.