
É interessante verificar como a luz tem um papel fundamental em nossa existência. Ela tanto está associada ao que vemos como ao que deixamos de ver. É ainda uma metáfora no sentido de apontar aquilo que aparentemente está claro e aquilo que mergulha na escuridão do desconhecido.
Os personagens da série “A luz do mundo”, de Sidney Lacerda, surgem a partir da fotografia, com posterior rebatimento da imagem e encaixe para gerar seres de outras dimensões. Seu grande impacto visual é propiciado justamente pelo uso da luz. Nos melhores momentos, há uma proximidade com o barroco enquanto universo de percepções de mundo.
O diálogo entre claros e escuros aponta justamente para aquilo que se explicita e que se deseja esconder. Trata-se de um jogo caracterizado pela contínua presença do mistério. E é justamente dessa atmosfera de sugestões que a arte se alimenta. Mais importante que revelar os seres e deixar que eles se manifestem com sutileza, entre as trevas de nossa consciência.
A temperatura das imagens é justamente a de oferecer ao observador atento mundos paralelos em que as impossibilidades da lógica se tornam possíveis pela técnica. Mas, acima de tudo, o que está em jogo é a capacidade de estabelecer uma realidade visual e afetiva paralela e imaginária. É nela que nossos maiores sonhos e principais pesadelos se realizam.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.