
Pássaros são seres maravilhosos. É nas suas asas que está a capacidade de voar e de conquistar novas possibilidades da consciência e da inconsciência. O sonho da humanidade de construir dirigíveis e aviões passa justamente pelo desejo de galgar as alturas e vislumbrar a realidade de pontos de vista cada vez mais altos e longínquos.
A pintura de Cecilia Rodrigues lida justamente com esse contraste entre o voar e o ficar estático. A dicotomia entre viver e não viver passa por pensar que aquele que está parado não prossegue sua jornada. E quem sofre tem geralmente o sentimento de que sofre pelo outro, mas, de fato, lamenta a saudade e solidão que passam a lhe fazer companhia.
A ausência de quem se foi se torna uma presença. As cores rebaixadas da obra apontam justamente para essa ambivalência cruel e bela, pois sentir a falta de outrem é a comprovação de que estamos presentes. Resistir ao tempo, assim, é uma jornada de busca de alegrias em meio às frustrações cotidianas.
O processo de voar é análogo ao de viver: prazeroso, mas dispende energia. Uma obra de arte, nessa concepção, é uma leitura interpretativa em que o artista fala de si e do mundo. Cada trabalho passa a ser a reafirmação de estar vivo. É um erguer a cabeça perante todo tipo de transtorno para anunciar que se está ali, presente, erguendo as asas, levantando voo, sem esquecer alegrias e tristezas do passado, fazendo dele a base de nosso impulso existencial.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.