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Poética da casa

Poética da casa
18/02/2020

Uma casa é como uma pessoa. Ela guarda alegrias, que podem ser perder ao longo do tempo, mas, principalmente, é um universo de cicatrizes que vão sendo acumuladas. Essas marcas estão presentes, talvez, de maneira mais evidente nas paredes, com suas fendas ou rachaduras, mas também em todo lugar quanto mais desenvolvemos o nosso olhar.

A obra de Cecília Rodrigues é, nessa linha de raciocínio, muito mais que uma casa de Minas Gerais. Cada detalhe traz memórias íntimas de seres que ali habitaram e que compartilham com outros a sua humanidade. Cada vestígio que a pintora traz de volta em sua imagem é um traço da existência que integra a narrativa dela mesma e de cada um de nós

As janelas, maneira de uma residência falar com o mundo, e o telhado, ponto mais alto, de proteção, são pontos narrativos. Mais do que partes constituintes de um todo, constituem documentos de uma maneira de ser e de pensar, pois uma residência é um documento a indagar e a revelar um momento pessoal e histórico que jamais irá se repetir.

Muito se perde no processo da passagem do tempo. As flores e as árvores de hoje, por mais belas que sejam, não são as do passado, assim como traços deixados na cerca. Nesse constante fluir, o diálogo entre as épocas permanece. A casa foi um ser. Décadas a transformaram e Cecilia Rodrigues, ao congelá-la num determinado instante, valoriza, cristaliza e dá humanidade a toda essa história.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.