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Engajamento na arte

Engajamento na arte
17/02/2020

Muitos perguntam se a arte deve ser engajada. Se isso a valoriza no mercado, por exemplo. A questão foge a simplificações a ou maniqueísmos. Pode-se exemplificar com o trabalho “A indignação de Eça de Queiroz, do artista visual Milton Takada. Pintada em com tinta acrílica sobre tela em 2018, traz reflexões fundamentais para quem gostar de fazer e pensar a arte.

A primeira está na motivação do artista. No caso, uma frase do imortal escritor português Eça de Queiroz: “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”. Dentro do espírito crítico do mestre luso, a imagem de Takada alerta justamente para a necessidade de renovação dos participantes da vida pública.

A segunda é na realização. O criador, natural de Bilac, SP, vale-se de diversos elementos, como a tradicional imagem da justiça de olhos vendados, só que tampando o nariz e dando a descarga, uma latrina roxa fora de perspectiva esperada, retratos de rostos de políticos em diversas posições e o icônico prédio do Congresso Nacional.

A combinação de todos esses elementos é feita com uma consciente seleção das cores, com o verde e amarelo na divindade, o azul no Congresso e os políticos em preto e branco. Tudo contribui para que a privada esteja em primeiro plano, no centro do quadro. Pode-se, e deve-se, portanto, concordar ou discordar com a mensagem do artista, mas há nela um planejamento de composição.

O engajamento, nessa maneira de pensar, não é um bem ou mal em si mesmo. O eixo da resposta da pergunta inicial está na maneira como a arte se manifesta visualmente. O que se diz é relevante, claro, mas, para o mundo da criação plástica, o como se organiza esse pensamento deve concentrar as atenções. Assim, a fala de Eça de Queiroz (1845-1900) ganha, no século XXI, uma nova cara, uma nova manifestação, nem melhor nem pior, mas diferente.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.