

Quando se pensa em conhecer um artista plástico, um trabalho costuma ser insuficiente, pois é fácil acertar ou errar estrondosamente em uma tela, escultura ou outro tipo de manifestação visual. Por isso, a apresentação de dípticos é uma maneira relativamente justa de verificar como um criador se relaciona com o mundo circundante e como o interpreta.
As obras “A floresta invade a cidade I e II”, de Stephanus Moschini, ilustram como o artista lida com o espaço, formas e cores para o desenvolvimento de um tema. No presente caso, o diálogo entre duas instâncias (a zona rural e a urbana) é tratada com intensidade e certo humor, presente, por exemplo, na desproporção das formas e suas possíveis interpretações.
Os dois universos se relacionam por intermédio de personagens ligados à tradição popular que saem da floresta, seu ambiente natural e habitual, para se inserir em outro universo. Essa conversa tem como personagem dominante o saci-pererê, um elemento marcante quando se pensa um exemplo de elemento folclórico tradicional que se tornou ícone nacional.
Algo que chama a atenção é a maneira como a cidade é retratada. Não existe uma visão única, mas dois elementos que interagem. Há os altos prédios da metrópole e também casas populares aglomeradas umas às outras, ou seja, o mundo urbano não é um só, mas construído de diversas influências e culturas. Assim, articula seus próprios caminhos.
Os trabalhos de Stephanus Moschini, nesse sentido, são retratos de uma conversa possível entre realidades diferentes. Seus traços contundentes e marcantes evidenciam uma forma de ver o mundo em que a invasão não precisa ser necessariamente violenta, mas pode ser uma maneira de expressar seu sentimento no mundo.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.