
Lidar com as palavras sempre é um grande desafio. Trata-se de um jogo inesgotável, marcado pela busca constante delas de se comunicar com o mundo. Perante uma obra de arte visual ou de uma música, ou ainda de um balé, os vocábulos e as suas associações, em frases e parágrafos, parecem sempre fracassar.
As palavras parecem presas em suas limitações. Essa é justamente uma das leituras possíveis da escultura “La jaula de las palabras”, do artista mexicano Angel Sanchez Gas (1933 -2015), conhecido como Gelsen Gas, diretor de teatro e de cinema, ator, pintor, poeta, enfim, um ser multifacetado.
A obra, em ferro esmaltado , junta de ossos humanos à fibra de vidro, incluindo pequenas varas de ferro e correntes, mesclando materiais numa forma de apropriação e de reciclagem. Realizada em 1964 e exposta no Museu de Arte Moderna da Cidade do México, obriga a refletir sobre a inutilidade dos vocábulos em muitas ocasiões.
É como se as palavras fossem prisioneiras de sua capacidade de comunicar com o mundo. Ao mesmo tempo, a escultura, em forma de totem, evoca o sagrado que elas têm em nossa sociedade, mas o abuso delas também pode levar à sua vulgarização e perda de significado, o que atesta a sabedoria do silêncio, muito presente no Oriente, por exemplo.
O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade já alertava sobre a vã luta com as palavras, assim como a necessidade disso acontecer o tempo todo. A escultura de Gelsen Gas revela que as palavras fascinam e limitam. Cada um de nós as ama e as odeia, já que nos acompanham até a morte, aprisionando e libertando, reciclando o que somos, pensamos e vivemos.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.