
Poucos filmes discutem com tamanha delicadeza as facilidades da realidade virtual perante as complexidades da vida cotidiana como “Auggie”. Dirigida por Matt Kane, conta a história de um executivo que, aposentado e com uma filha crescida, sente um vazio existencial profundo. O que fazer com o tempo que lhe resta?
A resposta surge com presente que ganha dos colegas de trabalho: óculos que lhe permitem visualizar a companhia que seu subconsciente deseja. Escondido da esposa, mergulha nesse personagem e se apaixona pela musa que projeta em imagens, travando com ela conversas e relações sexuais.
Se a realidade virtual nos leva a outro mundo, a aumentada traz seres fictícios a este. À medida que o excelente ator Richard Kind se aproxima desse ser falso (a sensual Simone Policano), afasta-se da fiel esposa (Susan Blackwell) e da filha, que sofre um acidente de carro, felizmente sem maiores consequências.
Assim, o mundo real, com suas dificuldades, se avoluma e leva o protagonista a um colapso, pois, na realidade aumentada, apenas o prazer é a tônica. Na impossibilidade de viver os dois mundos ao mesmo tempo, os últimos minutos do filme apontam para uma alternância curiosa, em que o viver e o imaginar talvez possam conviver de alguma maneira. Ou não?
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.