
O fascínio das línguas reside em sua capacidade de mostrar continuamente como o mundo pode ser visto de maneiras distintas. Cada idioma traz em sai conotações e características que o tornam único no sentido de ter a capacidade de construir interpretações peculiares plenas de sentidos. Por isso, o fim de uma língua é o término de um aspecto essencial de uma cultura.
A obra “Veias”, de Viviana Giampaoli tem como suporte uma esteira feita com espinho de buriti e algodão da tribo Mehináku, do Xingu, MT. As palavras nela inscritas são da língua com o mesmo nome, da família arawáke, utilizada por menos de 300 pessoas. Trata-se de um povo que não utiliza a escrita e que se vale, portanto, da oralidade para se ligar ao mundo.
O suporte é utilizado pelas mulheres indígenas para preparar o beiju. É sobre ele que Viviana apresenta um poema feito a partir de palavras retiradas de seus estudos dessa língua. O desafio está justamente em estabelecer uma conversa entre os vocábulos ali inscritos em uma expressão do alfabeto ocidental e sua tradução. É assim que cultura diferentes podem se conectar.
VeiasNa TerraTua bocaMeu peitoTeu coraçãoMinha veiaSangueLágrimasNo céu
Assim, as palavras sobre a esteira se tornam alimento para nossa alma. Ao serem colocadas sobre a esteira, transformam-se em algo tão essencial como a comida que nos mantém vivos.
O alerta está dado: a cultura, que se expressa na língua, entre outras facetas do cotidiano de um povo, deve ser tratada com todo cuidado, pois é tão fundamental para cada ser humano e para cada povo como a refeição de cada dia.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.