
No célebre poema O lutador, de Carlos Drummond de Andrade, os comumente citados versos iniciais “Lutar com palavras/é a luta mais vã./Entanto lutamos/mal rompe a manhã./São muitas, eu pouco.” são um alerta constante pouco lembrado pelos artistas plásticos.
Muitas vezes dominados pelo discurso filosófico vazio ou pelo egocentrismo, eles caem em dois riscos igualmente perigosos: o de ter de um discurso intelectual até superior à obra ou o de julgar o próprio trabalho e domínio da técnica como a resposta para todos os desafios que os materiais, em sua infinita grandeza, impõem.
O artista plástico Luís Castañón, falecido em 1/10/2019, conseguia contornar esses dois perigos pela construção de uma obra sólida em todos os sentidos. Havia nele o predomínio de um pensamento geométrico, mas isso não significava uma dureza visual. O seu grande mérito estava no amplo entendimento do processo de composição.
Para ele, arte era a ação de compor imagens sobre o suporte que propiciava a grande luta do artista. Se o poeta luta com palavras, o criador de imagens combate com a linha, as formas e as cores. Vale-se de sua técnica para criar uma estética própria, diferenciada. É justamente nos momentos mais inspirados que se realiza na plenitude o jogo com diversos tipos de pincéis, tintas e cores sobre esse suporte.
Encontram-se, nessas ocasiões, muito mais do que variações sobre o mesmo tema, mas realizações sobre um assunto. A questão é como a composição se desdobra, seja ela sobre aquarela, monotipia ou pastel.
Castañón se valia de tamanhos e formatos variados para discutir, em última análise, a própria situação do papel, um suporte tão importante para a própria história das artes visuais muitas vezes renegado a um plano secundário numa mescla de preconceito e desconhecimento sob o argumento de que ele seria pouco durável – pensamento que só se justifica quando ele é de má qualidade ou é mal preservado.
Castañón mostrava uma habilidade especial para trabalhar com as nuances coloridas do próprio papel. Estabelecia-se assim um universo em que a cor da tinta possibilitava diversos resultados e em que a pesquisa surgia como grande vedete do processo. É justamente no ato de fazer que a arte tem o seu maior encantamento.
Por isso, com o tempo, o artista verdadeiramente digno desse nome fica cada vez mais exigente com cada etapa de sua criação.
Seja nas produções mais concretas, em que figuras são dificilmente reconhecíveis ou naquelea em que se pode encontrar referências no mundo que chamamos de real, a luta prazerosa com o papel, assim como a de Drummond com as palavras, indicava para um mesmo caminho.
Castañón preservava a humildade do seu processo criativo, vendo-se como um ser diminuto perante a grandeza do mundo do papel, mas ciente de sua capacidade técnica e construtor de uma poética marcada, principalmente, pela dedicação e o empenho a uma pesquisa constante em que o suporte escolhido, com seus múltiplos caminhos, espessuras e granulações, era essencial como base do trabalho plástico e como forma de pensar, ver e representar o mundo.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.