
“Quando uma língua vive,/se abrem, então,/a todos os povos do mundo/uma janela, uma porta,/o desabrochar diferente/de tudo aquilo que é ser e vida na terra”. Esse trecho de um poema do escritor mexicano Miguel León Portilla ilustra bem a obra de Giuliana Sommantico intitulada “Linguagem Sagrada “.
O conjunto de fotografias impressas sobre tecido com interferência de bordado à mão traz à tona numerosas questões sobre o valor das línguas como maneira de conhecer o mundo. Cada idioma, nesse ponto de vista, constitui uma forma de inteligência, ou seja, traz consigo um sentir a realidade circundante e as múltiplas identidades simbólicas.
A imagem da artista traz um indígena brasileiro que dialoga com uma construção ocidental e um cenário idílico. Os fios vermelhos que saem da única figura humana do conjunto apontam para a importância do discurso como maneira de ler o mundo ao seu redor, seja natureza, a cultura ou outras dimensões do viver e do estar no planeta. Tudo passa pelo poder de erguer e destruir mundos da linguagem em suas mais variadas manifestações.
Intitulado “Quando uma língua vive”, o poema, em sua estrofe final, traz, assim como a obra de Giuliana, uma leitura precisa da relevância de entender cada língua individualmente como um patrimônio cultural da humanidade como um todo: “Mas quando morre uma língua,/Ah! quando morre uma língua,/a memória fenece./ Espelhos quebrados para sempre,/sombra de vozes/silenciadas para sempre:/a humanidade se empobrece.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.