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Waltercio Caldas

Waltercio Caldas

A estética da leveza

A poética de Waltercio Caldas é marcada pela limpeza. Na exposição Frases sólidas, realizada no Centro Universitário da USP, na rua Maria Antonia, em São Paulo, SP, em 2006, agulhas, taças, carimbos, couro e cartões com palavras escritas são os principais materiais utilizados pelo artista para estabelecer composições em que se busca eliminar todo tipo de excesso retórico.
Cada um dos elementos mencionados é explorado no máximo de sua potencialidade enquanto objeto plástico. Isso significa a busca de soluções em que uma coisa fale por aquilo que ela é e simboliza ao mesmo tempo, num exercício que exige, simultaneamente, o conhecimento profundo da coisa a ser trabalhada e o desapego aos conceitos cristalizados que têm de cada uma delas.
Uma taça, por exemplo, está comumente associada a alguns elementos tradicionais, como o desejo e a luxúria, por exemplo. No mundo criado por Caldas, ela até pode estar vinculada a essas idéias, mas, acima de tudo, é vista como um elemento concreto que, embora tenha uma denominação abstrata e sonora, vale – e muito – como objeto plástico que se expressa principalmente pela forma e pelo contexto em que é inserida.
Analogamente, as taças quebradas parecem apontar para a condenação de qualquer simbolismo fácil. O uso de elementos díspares como pedra, copo e papel num mesmo trabalho também remonta a uma certa fidelidade a cada objeto no sentido de ele guardar em si uma riqueza de caminhos que demandam exploração.
A agulha pode ser o que parece num primeiro momento, mas, jogada num novo contexto, é apropriada pelo artista para criar uma nova dimensão de relações. O importante é atingir a essência por meio de diálogos entre os materiais. Isso explica o uso da palavra “simples” em diversas peças apresentadas.
A simplicidade reside na busca de alternativas para trabalhar as frases sólidas. Elas não se contentam só com palavras e seus significantes sonoros. Também não se bastam em si mesmas. Por isso, em diversos casos, palavras escritas integram as composições do artista.
Texto e objeto podem caminhar juntos, numa tensão pulsante que obriga a refletir sobre como as palavras e os objetos mantêm elos arbitrários, mas também poéticos, num jogo em que o dito/escondido e anunciado/sugerido constitui o próprio mistério da linguagem.
Waltercio Caldas não oferece respostas fáceis em seu trabalho. Pelo contrário, ele acerta principalmente na forma como coloca questões fundamentais sobre a comunicação humana. Suas vitrines, pequenas no tamanho e imensas no senso de ocupação do espaço, obrigam  a retomar, numa dimensão profunda – aquela que a arte de qualidade propicia – a procura do denso entendimento dos mistérios da linguagem, seja ela escrita ou visual, denotativa ou conotativa, humana ou demiúrgica.