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Vítor Mizael

Vítor Mizael

Auto-retrato em raios-x

A história do auto-retrato é uma das mais fascinantes da arte e tem como paradigmas desde o encantamento de Rembrandt pelo tema a uma imagem inesquecível do primitivista José Antônio da Silva. O desafio maior, porém, está em se mostrar pelo desaparecimento, ou seja, se revelar e questionar sem estar de modo figurativo na obra.
  É isso que o artista plástico Vítor Mizael consegue. Nascido em São Caetano do Sul, SP, em 17 de fevereiro de 1982, traz seus auto-retratos na forma de radiografias, com inserção de colagem, costuras e escritos, além de pinturas em tinta acrílica e desenhos com nanquim em papel reciclado
  O assunto do artista é o próprio corpo, o que se evidencia nos raios-X, e as roupas, espécie de pele que o ser humano usa, desde os primórdios, para se proteger do frio, mas que passou a ser progressivamente uma nova pele, uma forma de se esconder e se mostrar para o mundo.
  Cada osso revelado, cada roupa transformada em objeto expositivo e cada palavra com poder gráfico traçam um auto-retrato bem mais forte do que uma representação visual de si mesmo. Estão ali fraturas internas, máscaras cotidianas e pensamentos fragmentados num conjunto que diz quem é e o que pensa o artista.
  Se a radiografia descobre a essência do que está dentro, a roupa isolada do corpo constitui um mapa de emoções enquanto os vocábulos soltos e os textos raramente totalmente legíveis indicam quebra-cabeças que exigem ampla sensibilidade para serem montados.
Vítor Mizael manifesta uma coerência visual que aponta para processo de esvaziamento dos próprios armários da consciência para mergulhar fundo na arte e no renascer esteticamente renovado a partir da profunda radiografia e da delicada costura de sua história individual.