A pesquisa como sacerdócio
A arte vem se tornando nas últimas décadas e, preferencialmente no século XXI, um universo em que o multidisciplinar ganha um papel predominante. Isso se faz presente não apenas na forma do fazer , com a mescla de técnicas e suportes , mas muito na maneira de cada criador se entender como um produtor de imagens e de idéias .
Orlando Marques, nascido em Santa Bárbara d’ Oeste , em 1963, é uma expressão de alguém que se vê como artista não só pelo resultado obtido em seus trabalhos , mas , acima de tudo , por se considerar um incessante estudioso , inquieto na procura pelas mais diversas alternativas .
Lidar com madeira , cerâmica , ferro , sucatas ou tintas não constitui um problema . A autêntica questão é como tornar isso tudo significativo no sentido de apresentar o melhor de si , seja numa performance ou num objeto . O essencial é não se repetir e ver cada desafio como possibilidade de renovação.
O ato de parafusar ou soldar é tão nobre , nesse contexto , como o de realizar um desenho ou uma pintura . O mundo da arte se alimenta da realidade , tanto da tecnologia quanto dos objetos em si mesmos , para transmitir uma posição e um sentimento de ser e de estar no mundo .
A cadeira , um dos símbolos do artista , assim como a geometria , com o uso de triângulos , retângulos e círculos completos ou pela metade , apontam na mesma direção : aquilo feito originalmente para uma coisa pode servir para outra . Isso se evidencia quando os tamanhos são alterados de 3 cm a 2 m ou pelo desafio da lógica aristotélica .
Orlando Marques brinda ao observador a rica possibilidade de fugir da mesmice . Pelo uso de figuras , cores e materiais diferentes , até pelo próprio corpo quando realiza uma performance e incorpora um personagem , indaga constantemente , atitude que o coloca dentro de uma família de artistas que tem na inquietação uma característica e no levantamento de dúvidas uma espécie de sacerdócio , cujo santo maior é a pesquisa contínua .