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Norma Mobilon

Norma Mobilon

O desaparecimento da imagem

Existe na arte da gravura, detentora de uma mágica toda própria, um jogo especial entre o que pode ser visto e o que permanece escondido. Trata-se de um diálogo entre a aparência e a existência. Mergulhar nesse universo demanda maturidade e pesquisa, pois o poder da imagem em si mesma como aglutinador de interpretações é imenso.
  O conjunto plástico de Norma Mobilon se dá exatamente nessa fronteira entre o que se pode ver e o que se deseja velar. Sua discussão visual provém de obras com imagens de caveiras, ossos e esqueletos, geralmente com  a técnica da ponta seca, em que a conversa entre o poder do negro e a luz do branco instaura atmosferas que remetem a Goya e à relação da cultura mexicana com o Dia de Finados.
  Mas havia lá uma questão essencial: a da luz. O seu excesso ou ausência era determinante para atingir o clima pretendido. O posterior mergulho na cor, inicialmente o azul, mas também variações de ocre e outras dimensões geralmente em tons rebaixados favorece um novo caminhar, que é o desenvolvimento do percurso anterior, mas constitui uma jornada renovada.
  A dimensão que se instaura é a da esfera da arte como manifestação de uma interpretação de mundo e da ótica como ciência e conhecimento daquilo que nossos nervos, neurônios e cérebro permitem enxergar. A presença da figura, construída com buril em procedimentos como água tinta e água forte, se dilui perante a onipresença da cor.
No entanto, a imagem permanece, mais ou menos sugerida em cada caso dependendo não só do resultado da impressão, mas da iluminação que a gravura recebe e da relação que cada uma estabelece com aqueles que estão próximas. Dentro da perspectiva dessas variáveis, o objeto gravado na placa e impresso pode ficar apenas sugerido.
Novas nuances surgem com a entrada no trabalho de planos. Eles se confrontam com as figuras construídas com a linha, gerando infinitas possibilidades de sobreposição e de experimentação. A gravura, nesse processo, ganha uma dimensão pictórica, onde as massas impressas tanto podem interagir com a imagem ou simplesmente anular a figuração em nome da geometria da composição.
O andamento dessa pesquisa com a cor conduz à reflexão sobre o desaparecimento da imagem ou melhor sobre como a percepção que cada um tem da presença da figura sobre distintas cores gera um estranhamento e mesmo uma dificuldade no olhar.
  A questão do que se pode ver e como isso ocorre é central. Não se trata apenas de desvendar o processo de criação, mas também de buscar um entendimento do olhar não apenas na esfera da educação do ver, mas também dos fenômenos físicos e biológicos associados ao entrar em contato com uma imagem.
  A pesquisa da gravadora Norma Mobilon gera indagações indispensáveis para a criação artística.  À parte da questão técnica, mas profundamente conectada a ela, está a poética instaurada pela concepção de todo um raciocínio em que a criação se volta para o ser, não para o parecer. A existência da imagem fica então em segundo plano, talvez, perante uma proposta fundamental: a sempre difícil busca pela contemplação ativa da obra e por uma melhor percepção do mistério de sua criação.