
Primeiro, ele faz o céu; depois, a terra; seus sulcos, as árvores, os frutos e, finalmente, os homens e mulheres que colhem aquilo que a natureza produz. Não se trata de uma parábola da Bíblia, mas da forma como o pintor Nerival Rodrigues realiza suas obras, principalmente as plantações de café, tema que já tratou em mais de 500 telas.
Ex-retirante, o artista já realizou 6 mil telas, sendo que aproximadamente 2500 estão no exterior, principalmente na Alemanha e no Japão, com imagens de plantações de tipicamente nacionais, como o mencionado, o café, o abacaxi e a cana, além de temas folclóricos e alguns urbanos.
Nascido em Garanhuns, PE, em 1952, Rodrigues trabalhou na lavoura até os 16 anos e, desde os nove, na hora do almoço, embaixo de uma árvore, rabiscava com gravetos a terra que ajudava a sulcar. Mais tarde, passou essas imagens e experiências de infância para seus quadros.
No início dos anos 1960, emigrou, num pau-de-arara, para São Paulo, passando por diversas cidades do interior. Nesse período, a vocação de Rodrigues para o desenho foi se expandindo com uso de carvão, fazendo caricaturas e com o conhecimento de técnicas como guache e aquarela.
Em 1968, ao ver a destruição do bosque do Parque D. Pedro, Rodrigues pintou seu primeiro quadro a óleo. Recebeu os primeiros elogios e continuou suas pesquisas estéticas. Foi graças ao grande amigo e intelectual Hélio Ribeiro, que deu os primeiros passos para expor, em 1973, na Praça do República, onde mostrou seu trablho durante dois anos, conhecendo pintores como Waldomiro de Deus e Maria Auxiliadora, e passando pelo crivo de críticos de prestígio como Enock Sacramento.
Entre 1971 e 1982, trabalhou como contínuo da IBM do Brasil, operador de limpeza de máquinas da NSK do Brasil e operador de draga da Companhia Suzano de Papel, largando este último emprego para se dedicar totalmente à arte. Mesmo quando enfrentou períodos de desemprego, não esmoreceu. Trabalhou como pedreiro, erguendo casas das Cohabs em Itaquera e Suzano e se orgulha de saber construir uma moradia desde as fundações até o acabamento.
As lições de vida de todas essas experiências aparecem em seus quadros. Embora tenha estudado apenas até o segundo ano do ensino médio, o artista pernambucano nunca parou de experimentar. Entre 1982 e 1986, por exemplo, passou por uma fase cubista, em que, segundo a crítica, é possível encontrar ressonâncias de Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral, retratando a ambiente rural dessa forma. Esse estilo, embora fosse muito pessoal e peculiar e tenha sido responsável por receber uma Medalha de Ouro, no 3º Encontro de Artes de Osasco, afastava-o da arte naïf enquanto técnica pictórica.
Admirador do francês Henri Rousseau, o pai dos naïfs, de Picasso, Van Gogh e do brasileiro Portinari, Rodrigues gosta de ouvir Mozart e Beethoven, principalmente a Pastoral, enquanto pinta. Não dispensa, porém, um bom som nordestino, como os discos de Elomar e a banda Mestre Ambrósio. Outro de seus ídolos é Bob Dylan, de que tem uma coleção de uma centena de discos e Cds, tendo inclusive presenteado o cantor com um quadro quando o artista realizou shows no Brasil.
Foi também na década de 1990 que Nerival Rodrigues teve uma de suas maiores conquistas internacionais. Pintou, em 1995, A liberdade questionada, um mural para o Centro de Estudos Gerais da Universidade Nacional de Costa Rica, fundada por intelectuais do porte de Paulo Freire e Darcy Ribeiro.
As cores vivas e a preservação da natureza são as marcas registradas de Nerival Rodrigues. Elogiado por críticos conceituados como Walmir Ayala e Luiz Ernesto Kawall, o artista conserva nas mãos os calos de sua origem como trabalhador agrícola e pinta, em seus paraísos sertanejos, festas na roça, cenas caipiras e de colheita, uma visão paradisíaca do Brasil que todos gostaríamos de ver: frondoso, verdejante, rumo a um esplendoroso futuro constantemente negado.
Naïf nesse amor à natureza e às suas raízes populares e pelo autodidatismo, Rodrigues revela que uma de suas grandes paixões é o ator Mazzaropi, que retratou em telas que homenageiam os filmes O Candinho e Sai da Frente. É justamente essa mescla de simplicidade, modéstia e vibração que se encontra nos quadros do artista pernambucano.
Uma de suas realização mais importantes ocorreu em 2005, com a inauguração do painel Primícias da vida, no Centro de Negócios de São Paulo (Cenep), na capital paulista, empreendimento da Empresa Lemos Brito. Com 6 metros de altura e 22 metros de comprimento, tem como tema a alimentação da humanidade.
Predominam os tons de verde (as plantas e os diversos tipos de produtos agrícolas de que os homens e os animais domésticos se alimentam) e os azuis (cor do céu e da água). A obra foi feita com tinta acrílica sobre chapas dry-wall, chapas de gesso mesclado com serragem de madeira e amianto.
Ao ver como Rodrigues constrói seus quadros e painéis, fica evidente sua visão de mundo. A força vital de sua arte brota da terra. A partir dela, consegue compreender o mundo e a multiplicação da vida. Os frutos que o solo oferecem são a maior dádiva da arte, dom que não se ensina.
Assim é arte de Nerival Rodrigues. Surge espontânea, rica e vinga com força, pois é desenvolvida com as melhores técnicas disponíveis. Nessa fusão entre talento, oriundo não se sabe de que segredos divinos, e a técnica aprendida com muita observação e autodidatismo, o pintor apresenta uma arte viçosa, forte e alegre. Infelizmente, como costuma acontecer com os artistas naïfs de modo geral, seu talento é muito mais reconhecido em países como EUA, Alemanha e Japão do que no próprio Brasil, justamente de onde o artista retira sua matéria-prima em termos de temática popular e cores vibrantes.