Vigor plástico
Uma das principais características das obras de arte de qualidade é a sua intensidade. São aquelas que têm algo a dizer além da figura propriamente dita. Existe nelas um processo e uma reflexão constante que traz um pensamento sobre a existência cotidiana de todos nós.
As gravuras de Néia F. Martins apresentam, no mínimo, três vertentes que se cruzam pelo poder de transformar em imagens uma forma de conhecer o mundo. Cada expressão revela como é possível erguer um raciocínio coerente mesmo com assuntos distintos quando está claro que o verdadeiro tema é o próprio fazer.
Os auto-retratos, por exemplo, apresentam grande força imagética e gráfica, numa seleção de locais, geralmente o próprio rosto, para executar um trabalho mais apurado de gravar as próprias raízes como maneira de conhecer melhor a técnica e a si mesmo por meio de um aprimorado diálogo entre o construir e o pensar.
As imagens de natureza apresentam um pensamento em que a sugestão e o lirismo estão muito mais presentes do que a mera reprodução. Isso significa que a questão central está na maneira do olhar, não naquilo que se observa. O encontrar o poético no cotidiano leva a achar um falar particular.
Um terceiro caminho, próximo e distante ao mesmo tempo dos outros, aponta para a composição de fortes mulheres em variados contextos. São um dizer denso da condição do ser humano e da sua vontade de existir perante um mundo onde muitas vezes parecemos não passar de joguetes divinos.
A atmosfera surreal ou simbólica, de acordo com o caso, acentua o tom de mistério da maioria das elaborações. Surge um discurso visual caracterizado pelo pensar que dispensa explicação verbal e transporta para um universo de questionamentos e respostas, sendo a principal delas o vigor presente no ato de solucionar a forma de apresentação de cada imagem.