A arte da forma
Max Jacob (1876-1944), em Conselhos a um jovem poeta, apontava que “a arte é um jogo. Tanto pior para quem dele faz um dever”. É justamente essa a impressão que se tem ao observar os trabalhos do artista plástico paulista Marcos Garrot. Seus relevos e esculturas, sejam da Série Forma, Sobreforma ou seus Múltiplos, apresentam um fascinante aspecto lúdico que cativa o observador.
Nesse sentido, a Série Sobreforma se destaca pelas numerosas variações no trabalho com ferro pintado. Figuras geométricas de retângulos e triângulos vão surgindo às nossas vistas em tons que percorrem do negro ao branco, passando por tonalidades mais ocres, sempre com a importante participação da luminosidade como recurso que transforma cada obra.
A capacidade do artista de surpreender está, em boa parte, no ludismo que o leva a transformar o que poderia ser um rígido construtivismo num jogo de cores e luzes pleno de vida. Estamos perante configurações estéticas que remetem muitas vezes a tabuleiros de xadrez, mas nunca colocados de maneira convencional.
Há sucessivos processos de construção e desconstrução que dão a cada trabalho uma atmosfera quase mística, numa espécie de mandala geométrica. Ao se despir do figurativo, o trabalho de Garrot aponta para uma outra dimensão: a da espiritualidade de uma poética e de uma estética na qual as formas, sejam retangulares ou circulares ganham relevância.
A mescla de materiais, como o uso de ferro pintado sobre madeira ou dolomita valoriza ainda mais a pesquisa, pois substitui a rigidez pelo lirismo formal. Escalas de cor e gradações motivadas pelas numerosas perspectivas criam um universo próprio, uma espécie de galáxia em que aparentes repetições possibilitam encontrar sutis diferenças.
A utilização, em certos trabalhos, das cores vermelho e azul transmitem maior vida às obras e geram uma comunicabilidade maior com o receptor. O diálogo introspectivo da maioria das peças ganha então uma dimensão nova, mais expressiva, que leva cada um a refletir menos e a se emocionar mais.
Instaura-se assim um universo de tensão entre a contenção e a explosão em que o grande ganhador é o público. Há nas esculturas de Garrot a elegância do faisão e, ao mesmo tempo, a introspecção da coruja. Esses dois seres do mundo animal parecem estar implícitos no jogo formal do artista, que tanto conduz ao êxtase estético como a reflexão existencial.
Para Anatole France (1844-1924), “o artista deve gostar da vida e mostrar-nos que ela é bonita”. O escultor Marcos Garrot faz isso com a sua lúdica capacidade de construir formas que dão a certeza que o grande mistério da arte é justamente encontrar o ponto em que seja possível tocar o âmago das pessoas sem se render a uma beleza sem conteúdo. Com a majestade de um faisão e o mergulho interior da coruja, o trabalho do artista vem concretizando esse objetivo.