Indagações desafiadoras
Ao trabalhar com os mais diferentes materiais e técnicas, como pintura, escultura, objetos, instalações e fotografia, o artista plástico Malah oferece muito mais que uma produção diversificada. Ela tem valor principalmente pela capacidade de manter uma coerência estética marcada pela inquietação e pela forma como a arte é tratada de modo a oferecer uma interpretação em que a temática social, geralmente – mas não sempre – é proposta.
Nascido em Recife, Pernambuco, em 27 de janeiro de 1937, Malaliel José de Souza iniciou seus estudos artísticos na Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro. Teve ainda aulas com Ubi Bava e Ivan Serpa, no Rio de Janeiro, e participa, em Curitiba, PR, de atividades no ateliê livre do artista plástico Edílson Viriato.
Inicialmente, realizou um trabalho em que figuras acadêmicas se mesclavam com técnica expressionista. Os principais assuntos eram procissões, igrejas, bêbados e negros. Nessa primeira fase, merece referência a presença da crítica social, por exemplo, na imagem de um Cristo negro crucificado.
É interessante verificar como essa mesma vontade de criticar a sociedade contemporânea se faz presente nas instalações posteriores, em que há o desejo de denunciar questões que tanto preocupam e envergonham o país, principalmente a fome e a miséria. Embora tenha ocorrido uma passagem do bidimensional, a força motivadora de ambos os trabalhos parece ser a mesma.
Num segundo momento, dentro de uma óptica construtiva-geométrica, formas e estruturas ganhavam o primeiro plano, tanto em preto e branco como por meio de cores. Mesmo quando a geometria fala mais alto, não existe no trabalho de Malah a frieza estéril de boa parte da arte contemporânea.
Mesmo ao pintar um dodecaedro, por exemplo, o uso consistente das cores e tonalidades terrosas por Malah dá ao seu trabalho a possibilidade de propiciar diversas interpretações, não apenas como exercício estético – fundamental para todo artista –, mas como uma resposta técnica à sua forma de se relacionar com a arte e com o mundo.
Mais recentemente, surgem as instalações, com predominância de temas relacionados às injustiças da sociedade. Materiais reciclados coletados em lixões podem ser o ponto de partida para a criação de ambientes e situações em que o público é estimulado a oferecer respostas.
Radicado em Piraquara, PR, próximo a Curitiba, Malah – que já realizou exposições em diversas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Blumenau e Curitiba, e no exterior (Argentina, Canadá, Espanha, França e Uruguai) – apresenta seu maior valor artístico na capacidade intrínseca de seu trabalho de gerar inquietações.
Principalmente nos trabalhos bidimensionais, com o uso de técnica mista sobre tela, surge um vigor que se manifesta na forma em que é trabalhada a matéria. Acima da questão temática, Malah revela recursos técnicos que apontam para a realização de obras cada vez mais densas em que cada ato de pintar ou de montar uma instalação nunca seja uma “fria” apropriação da realidade, mas sempre uma “quente” indagação a desafiar o observador.