Capacidade dos materiais
Dois elementos fundamentais na história da arte se mesclam no trabalho da suíça radicada no Brasil Magy Imoberdorf: o desenho e a madeira. O primeiro foi – e continua sendo – uma das principais bases de qualquer forma de manifestação visual, seja na pintura, escultura, arquitetura ou instalação, enquanto a madeira é um dos materiais mais nobres, pois exige ser respeitada em seus vincos, texturas, cores e idiossincrasias.
Magy mescla esses dois elementos na exposição na Fundação Stickel, em São Paulo, SP, de 4 a 24 de fevereiro de 2006. As composições que cria, principalmente aquelas nas quais a figura humana se faz presente, tem a capacidade de envolver emocionalmente observador.
O trabalho é muito mais que uma reciclagem de madeira apanhada no lixo ou recebida de amigos. Há nele uma tocante humanidade, presente em, pelo menos, dois níveis. O primeiro é o do lirismo das imagens desenhadas em papel Kraft e aplicadas na madeira. Surge assim uma dimensão épica e lírica pela mistura da força do material com a delicadeza das imagens.
O segundo é o do fazer artístico propriamente dito, porque Magy, dentro da tradição suíça das artes manuais, não teme o desafio de lidar com uma lixadeira ou serra elétrica. Encontra no contato com a madeira a motivação para refletir sobre o mundo, tanto pela ótica artística como social.
Predominam figuras sentadas que parecem esperar a vida passar em bancos de praça, pontos de ônibus, jardins ou varandas. Há nelas algo da pureza e, ao mesmo da energia potencial de Forrest Gump, o célebre personagem interpretado no cinema, em 1994, por Tom Hanks.
O casal com filho ou a senhora tricotando, obra em que são adicionados elementos, como a lã, são emblemáticos de uma arte que mobiliza cada um de nós. O desejo que temos é o de dar vida a cada imagem criada pela artista. Na verdade, elas ganham esse sopro pela capacidade de instaurar um mundo mágico, no qual saem da parede e vem dialogar conosco.
Há ainda a representação de folhagens, em composições próximas à abstração que ganham força quando dialogam, por exemplo, com a roupa de uma mulher. Nesses momentos, evidencia-se que o importante da obra de arte não é tanto o que ela mostra, mas a sinceridade e a forma como é feita.
No Brasil desde 1969, quando tinha 23 anos de idade, Magy fez carreira como diretora de arte de agências de publicidade e expõe desde 1984. Os trabalhos agora mostrados na Fundação Stickel são um corajoso salto qualitativo, pois combinam a difícil habilidade do desenhar com a simplicidade do poder demiúrgico do artesão. A fusão gera infinitas possibilidades que a artista não deixa escapar.