Rumo à abstração
A aquarela da artista plástica Lucia Novo tem um percurso dos mais curiosos e significativos. Em trabalhos anteriores, debruçou-se sobre a arquitetura dos arcos e, posteriormente, sobre as maravilhas que a natureza oferece, como as do Parque Burle Marx, em São Paulo.
A exposição Verbos paulistanos, de 4 a 15 de abril de 2006, na Bita Arte Lofts, em São Paulo, SP, revela uma outra visão da realidade. O tema é a cidade de São Paulo, mas os grandes momentos não estão nas imagens com títulos em que mostra verbos como “Orar” ou “Habitar”, mas nos momentos em que consegue captar a dinâmica da cidade.
Isso significa, por exemplo, um descompromisso com os títulos e uma relação profunda com o ofício da aquarela. O que começa a estar em jogo é cada vez menos o referencial real, mas a representação daquilo que significa a essência de viver numa metrópole: o movimento incessante.
Os grandes instantes plásticos e poéticos da exposição residem na maneira como a técnica da aquarela é colocada a serviço de uma grande interrogação: captar o dinamismo de uma cidade como São Paulo significar ter na sua velocidade o grande assunto. Esse exercício de soltura gestual e técnica indicam um novo caminho.
Cada vez interessa menos se o tema é uma rua, uma avenida ou um verbo. Os títulos são inúteis. O que se começa a ver é, lembrando o poeta Carlos Drummond de Andrade, um “sentimento do mundo”. O mundo concreto passa a ficar em segundo plano perante a necessidade de transformar em imagem um paradigma existencial.
Sim, pintar São Paulo ou qualquer outro assunto exige o mergulho numa linguagem. Talvez isso não estivesse tão evidente na obra da artista como agora. Sua São Paulo passa a ser Nova York ou qualquer local do mundo. Seu universo se torna o da pintura em si mesma.
Esse passo aponta para um futuro em que a questão temática parece ser cada vez menos importante perante uma discussão fundamental: a do o virtuosismo técnico no trato da matéria. O fascínio com a dinâmica de cada trabalho e o uso das cores ganham cada vez maior relevância e a indagação essencial deixa de ser o que se pinta, mas, sim, como se pinta.
A presença bastante marcante da cor azul, por exemplo, é apenas um indicativo de uma das possibilidades plásticas de numerosas combinações em que o essencial reside sempre na melhor forma de transformar em aquarela uma necessidade interior de diálogo com o mundo.
Nesse sentido, Verbos paulistanos não é importante por ter “verbos” ou por eles serem “paulistanos”, mas por haver um trabalho plástico em nítida transformação. A pesquisa de cores ganha o primeiro plano e as formas se libertam rumo a um tipo de abstração infelizmente nem sempre presente nas galerias nacionais: a que é fruto da pesquisa plástica e da consciência de que o fazer artístico é um processo de constante e infinito amadurecimento de resultados imprevisíveis.