O domínio de uma técnica é um passo importante para que um artista plástico consiga firmar seu nome no competitivo espaço contemporâneo. No entanto, além de conhecer como se trabalha um material, torna-se essencial o desenvolvimento de um pensamento, que cristalize o fazer num saber pleno de densidade de vida interior.
A artista plástica Lú Salum trabalha com tinta acrílica e com encáustica. É nesta última que atinge resultados significativos e expressivos. A criação de um conjunto cada vez mais consolidado está possivelmente vinculada a um diálogo cada vez mais próximo entre o que é pensado, enquanto tema, e o que é feito, enquanto produção final.
É preciso lembrar que a encáustica (do
grego enkausticos, gravar a fogo) é uma técnica de pintura que se caracteriza pelo uso da
cera como
aglutinante dos
pigmentos, gerando uma mistura mais ou menos densa e cremosa de acordo com a forma como o artista trabalha os materiais, utilizando
pincel, espátula ou outro recurso.
Um de seus elementos mais fascinantes é a resistência ao tempo. Os instrumentos vão desde os mais tradicionais aos modernos, como braseiros elétricos e maçaricos. O elemento a ser derretido inclui
cera de
abelha refinada, cera de
Damar,
parafina e cera de
carnaúba. Nessa mesma caça por soluções, os suportes geralmente usados são desde a parede de alvenaria a placas de madeira e tela.
Lú Salum reúne em sua obra aspectos fundamentais para trabalhar com a encáustica. Um deles é a transparência. Ao se valer da cera aquecida, consegue efeitos desafiadores entre aquilo que é explícito e sugerido, num jogo em que a cor e suas sutilezas têm um papel predominante.
Os efeitos obtidos com texturas e com a densidade do material permitem trabalhar com relevos maiores ou menores. A artista conseguiu desenvolver um efeito em que a imagem, de longe, parece ter volume, mas, ao se ver a obra de perto, percebe-se que tal efeito foi obtido pelo uso de técnicas adequadas de sobreposições e veladuras.
O grande desafio da técnica de Lú Salum é motivar o observador a atingir a transcendência por meio de suas telas com encáustica e o uso de outros recursos, como a ferrugem, dando às suas obras um sentido de envelhecimento e de passagem do tempo. Não se trata de um momento místico, mas sim de gerar uma introspecção que provoca uma re-ligação da pessoa com ela mesma e com o mundo.
A encáustica, ao lidar com o fogo, elemento que, na Grécia antiga, estava ligado de maneira iminente à inteligência, como mostra o castigo divino imposto por Zeus ao titã Prometeu, que o roubou dos deuses, e aos homens, que dele usufruíram, exige a coragem de encontrar um elo comum entre cada trabalho cuidadosamente elaborado.
Colocar técnica e assunto caminhando lado a lado demanda um aprofundamento das duas instâncias e a disposição de correr riscos. Se Prometeu foi condenado a ter o fígado eternamente bicado por uma águia e os seres humanos passaram a conviver com os males contidos na célebre caixa de Pandora, Lú Salum pode nos obrigar, ao queimar a cera com o fogo, a mergulhar nos próprios medos. Assim, após cada nova obra, a artista sairá mais fortalecida enquanto dominadora de um processo técnico e o observador, enquanto ser humano.