Estético grito calado
Poucas atmosferas urbanas são tão ricas em sentidos como o metrô. Existe nele a questão básica da cidade, que é a do anonimato no coletivo, ou seja, a presença de milhares de pessoas que se torna uma ausência porque cada uma delas não apresenta individualidade alguma.
O mural em mosaico intitulado Gente, viagem, mente, da artista plástica Leilah Costa, inaugurado no dia 28 de novembro de 2008, na Estação Vila Mariana, em seus 3,71 m x 4,79 m, reúne os principais atributos da arte contemporânea, que são, entre outros, a discussão do espaço como um local de representação e da função da arte pública como uma área de discussão perene.
Os fatos de as imagens terem sua matriz no computador e de as figuras humanas incorporarem numerais ou letras, embora importantes no contexto do trabalho, talvez sejam menos relevantes perante a forma como as pessoas aparecem no painel, em atitudes que são vistas cotidianamente, mas podem passar despercebidas.
Casais de namorados, numerosos e entretidos apenas com eles mesmos, pessoas solitárias, correndo de um lado para outro numa metrópole que não conhece o descanso, e viajantes, portando bicicletas, numa integração de meios de locomoção disciplinada pelo metrô em horários e dias específicos, são algumas das imagens apresentadas.
O fundamental está na articulação entre esses personagens urbanos. Há neles uma indiferença em relação aos outros e uma ausência de singularidade. São seres numéricos e – muito mais do que isso – constroem uma esfera em que ser desconhecido é preservar a si mesmo da agitação urbana, mas integrando-a mesmo assim.
Leilah Costa oferece em seu mural uma representação visual em grande escala e regida pela cor de uma imagem inúmeras vezes vista nas plataformas. Fixada numa das paredes, ela se cristaliza como um alerta contra a solidão e a indiferença contemporânea, numa espécie de calado e estético grito pela solidariedade não só entre os usuários do metrô, mas entre os passageiros do mundo.