A poética do instante
A principal mágica do trabalho plástico da artista portuguesa Helena Almeida está na forma como realiza composições que dialogam intensamente com a escultura. Elas manifestam um sentimento perante cada instante de estar no mundo. Posições e atitudes indicam uma vibração íntima e diferenciada.
Densos elos desse fazer com a pintura e o desenho revelam um enorme zelo no estabelecimento de uma linguagem precisa com extremo cuidado em cada detalhe. Cada imagem constitui, assim, um haicai. O espaço é dominado pela técnica, mas a sensibilidade nunca é deixada de lado.
As fotografias de um corpo masculino e feminino se abraçando em preto e branco, por exemplo, apontam para uma relação do físico com o espaço que integra o gesto e a devoção ao movimento como um registro poético. A delicadeza é onipresente e instaura o denso mistério do processo e da consecução da criação.
Cada fotografia, embora integre uma série, ganha autonomia. É um todo que não necessita de uma proposta programática plena de citações ou referências. O que existe é a capacidade da artista de ouvir aquilo que o corpo diz. Há uma declaração de amor à vida e, ao mesmo tempo, um permanente diálogo com a morte, o escuro e o misterioso.
O mundo de Helena Almeida é a poética de um instante que se dá no espaço. Predomina o domínio dos volumes em registros criados por uma artista que se isola nas imagens para ser universal e se congela pela força da fotografia de modo a passar ao observador o lirismo de perenes e sublimes movimentos.