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Fernando Augusto dos Santos Neto

Fernando Augusto dos Santos Neto

A linha que comunica

O ato de desenhar diariamente 200 linhas horizontais a bico de pena sobre papel, num exercício de aproximadamente 40 minutos, e enviar o resultado plástico cada dia  para uma pessoa diferente, durante três anos, três meses e três dias, é a motivação do projeto “Um desenho por dia” do artista plástico Fernando Augusto dos Santos Neto.
  Pintor, desenhista e fotógrafo, graduado pela Escola de Belas Artes da UFMG, doutor em comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pela L´Université Paris I - Saint Charles - Sorbonne França, ele, atualmente professor da Universidade do Espírito Santo (UFES), estimula diversas reflexões.
  O fato de alguém dedicar parte de seu tempo a uma jornada de tamanha dimensão obriga a refletir sobre como cada um utiliza as suas 24 horas diárias. Passar 40 minutos num esforço que é dedicado ao outro é um ato de doação ao próprio exercício de divulgar a arte e de considerá-la uma forma do ser humano interagir com seus semelhantes.
  Realizar as 200 linhas por dia exige ainda paciência, perseverança e uma boa dose de autocontrole. O ato de não deixar passar um dia sequer sem realizar a atividade pode ser considerada uma prática marcada pelo comprometimento com o próprio trabalho e com a sua disseminação.
  O desenho cotidiano das linhas, que começou como prática individual disciplinada, ganhou nova dimensão quando passou a ser compartilhado. Enviar cópias significa criar uma rede em que a preocupação existencial é imensa. Tão ou mais importante que o fazer as linhas é o processo de seleção de quem deve receber cada página, numa tentativa de atingir o objetivo de propagar o desenho e de provocar um pensamento sobre aquilo que é feito.
  Compartilhar o tempo é o cerne da proposta. Fernando passa horas, dias e semanas a produzi-lo e a enviá-lo, sendo mais do que o justo que o receptor passe, pelo menos, alguns minutos de seu dia a pensar nos motivos que o levaram a receber aquela imagem e mais outros a refletir o que fará com aquilo que lhe chegou às mãos surpreendentemente.
  Assim como a linha da vida é construída pela forma como as ações são distribuídas ao longo do tempo, o projeto “Um desenho por dia”, de Fernando Augusto dos Santos Neto,  tem na comunicação seu maior valor. Rompe barreiras, instaurando a estética do diálogo, que envolve coragem da interação intelectual e psicológica.
O projeto nos obriga a redimensionar o tempo, desafio cada vez mais difícil, principalmente para quem habita uma metrópole, em que até o ato de parar para pensar ou observar uma pessoa ou um objeto passa muitas vezes despercebido, sendo geralmente considerado supérfluo, um luxo no turbilhão de emoções, fatos e ações que caracteriza a contemporaneidade.