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Fábio Sombra

Fábio Sombra

Um Construtor de Imagens


Guias de turismo trabalham sobre imagens. Eles mostram cidade aos turistas e vão exercitando sua capacidade verbal de retirar de cada paisagem o máximo de informações possíveis. Por isso, um bom guia é aquele que consegue transformar uma cidade pouco atrativa em um discurso envolvente e apaixonante.

O guia Fábio Sombra foi além de tudo isso. Ele passou a construir as próprias imagens, num estilo marcado por cores fortes e chapadas trabalhadas numa perspectiva muito peculiar. O carnaval, praças como o Largo do Boticário, no bairro do Cosme Velho, os arcos da Lapa e o bondinho de Santa Teresa aparecem em suas telas como pontos turísticos, sim, mas acima de tudo, com impressionante densidade imagética, que reúne pessoas, morros e prédios em composições harmoniosas e equilibradas.
Nascido em 1965, no bairro carioca da Urca, Sombra nasceu para iluminar. Seu vínculo com as artes plásticas já se configurava quando, na juventude, desenhava e estampava camisetas que vendia na Feira Hippie de Ipanema, onde a mãe tinha uma barraca de artesanato.
Posteriormente, formou-se em Direito, fundou uma estamparia e viajou, olhos atentos e mochila nas costas, pela América Latina, no final dos anos 1980. Foi, porém, após viajar pelo Velho Continente, em 1990, e contemplar os maravilhosos museus europeus, que Sombra sentiu o chamamento para a arte que caracteriza os naïfs.
Telas e tintas passaram a integrar o seu cotidiano. Iniciou sua produção, teve quadros incluídos no Museu Internacional de Arte Naïf do Rio de Janeiro, mas, após tentar carreira na Europa, percebeu que faltava amadurecimento à sua vocação. Não desistiu. Continuou pintando, tendo como principal inspiração a sua cidade, e, em 1999, teve telas adquiridas pelo Museu Internacional de Arte Naïf Anatole Jakovsky, em Nice, França, e pelo Museu Internacional de Arte Naïf Charlotte Zander, em Bönnighem, Alemanha.
Em 1995, Sombra fez o curso de Turismo e passou a acompanhar brasileiros por todo o mundo, principalmente pelo Leste Europeu. Quatro anos depois, o sentido das viagens se inverteu, pois começou a recepcionar os estrangeiros que visitavam o Rio, passando a ter mais tempo disponível para se dedicar à pintura.
Inicialmente, os temas eram aqueles dos quais falava. Seu Rio de Janeiro, colorido e alegre, é um colírio para os olhos, um ponto de partida para discursar sobre a Cidade Maravilhosa. Passar os olhos pelo trabalho pictórico de Sombra é, sob certo aspecto, até melhor do que visitar a cidade.
O olhar arguto do guia, seletivo e consciente, já nos conduz por um percurso pré-determinado. A Baía de Guanabara, Mangueira e Portela no Sambódromo, o reveillon na Praia de Copacabana, o Cristo do morro do Corcovado, o Pão de Açúcar, um domingo de futebol no Maracanã, tudo aparece nas telas de Sombra, também capaz de pintar um díptico sobre o céu e o inferno.
Autodidata, Fábio Sombra põe em seus quadros a realidade carioca que vê com lentes de artista e de guia turístico. Dessa mescla, nasce uma obra pujante. Aparentemente apenas um documento fotográfico em tintas, ganha, para o espectador atento, nova vida, pois é nos detalhes que ela ganha força.
Acima do encantador cenário natural carioca, bairros antigos, com sedutores casarios neo-coloniais e árvores frondosas mostram um Rio de Janeiro que muitos turistas não vêem. Preocupados com a violência urbana e a marginalidade, visitantes esquecem de como o Rio, pérola encravada entre a mata e o oceano Atlântico, é um cartão postal para um guia turístico mostrar suas qualidades, não só com as palavras, mas, no caso de Fábio Sombra, principalmente com as tintas.