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Eliane Goes

Eliane Goes

O poder do traço

“Nenhum dia sem um traço”. Essa divisa do pintor Apeles (século IV – século III a. C., segundo a História natural, de Plínio, o Velho,  aplica-se ao trabalho da artista plástica Eliane Goes. É justamente na prática constante do desenho e na busca permanente de uma poética própria que as suas telas ganham  expressividade.
A construção do próprio modo de ver o mundo por meio da arte tem as suas raízes na formação da artista. Desde criança, tinha no desenho a principal atividade. Nascida em São Paulo, SP, em 24 de agosto de 1953, sua vida sempre teve a arte como ponto de referência. Prova disso é que, aos oito anos, foi vencedora de um concurso de desenho na Escola de Belas Artes de São Paulo.
Ao fazer curso técnico de Comunicação Visual no Instituto de Artes e Decoração, desenho artístico na Escola Panamericana de Artes, Comunicação Visual e Desenho Industrial na Faculdade de Artes Plásticas da FAAP, além de outro cursos, Eliane obteve o subsídio para, hoje, poder fazer melhor algo que lhe é inerente: manifestar livremente o traço.
Eliane Goes não é uma artista, mas várias. Essa diversidade lhe permite realizar transposições entre técnicas. Entre 1980 e 1984, por exemplo, criou desenhos de estampas para diversos estilistas. Também pintou tecidos para moda, decoração, cenografia e figurinos especiais.
Essas atividades foram, sem dúvida, momentos de aquisição de técnica para desafios maiores. Um deles foi a mostra “Pintura em Cadeiras, realizada em 2000 e 2001. Trata-se de um trabalho que mescla a habilidade de lidar com a cor à versatilidade de enfrentar desafios.
Com algumas referências a Matisse e sempre com a preocupação de unir elementos do desenho com composições em que a cor tinha um papel fundamental, a artista apontou um caminho nada fácil a ser trilhado, que exige um diálogo constante entre a sua habilidade de trabalhar elementos gráficos, principalmente a figura humana, e o potencial de extravasar sentimentos pela construção de fundos e texturas.
A ampla experiência em eventos como a Casa Cor, desde 1992, atividade que estimula o diálogo com decoradores e arquitetos, e a prática de pinturas especiais, como afrescos e trompe l´oeil, são atividades estéticas que, de diversas formas, se manifestam em suas telas, principalmente no que diz respeito ao aprimoramento técnico e ao domínio do espaço.
Na sua jornada pictórica, as figuras humanas com fundos e teor expressionista são o que há de mais expressivo. Elas surgem com extremo vigor e facilidade, em gestos marcados pela beleza e pela valorização do ser humano. Pessoas solitárias, muitas vezes apenas silhuetas à espreita em janelas, mulheres de uma delicadeza e sensualidade peculiares e casais com corpos entrelaçados constroem a fala da artista com o mundo.
Esses seres se manifestam como respostas a um entorno rude e ganham em humanidade pelas posições que adotam. São humanos em luta consigo mesmos e perante uma realidade nem sempre aprazível. O vigor do traço de Eliane lhes dá vida e os coloca como pontos de resistência numa sociedade cada vez mais mecanizada e fria.
Num mundo regido por máscaras, Eliane deixa homens e mulheres nus. Seus corpos são esboçados e, muitas vezes, desconstruídos. Mas eles estão ali, presentes, mesmo que sutilmente. Sugeridos. A arte de Eliane é plena de humanidade no sentido mais amplo do termo, ou seja, a sua arte é sobre as pessoas, seus sentimentos e as relações delas com o mundo.
Nada mais natural, portanto, que seres humanos, compareçam nas telas de Eliane Goes. Mais ou menos evidentes, esses corpos, mais significativos quando apenas esboçados, são a prova visual da poética de uma artista inquieta, que, como Apeles encontra no ato de fazer traços e desenhar a liberdade de expressar um mundo interior que se desnuda a cada instante.