A humanidade das cores
A percepção da cor depende da maneira como o cérebro interpreta a distribuição do comprimento de ondas de luz que penetra nos olhos. Por isso, ela tanto pode ser analisada sob o aspecto físico/óptico, no que diz respeito à natureza da luz, ou fisiológico/visual, quando se pensa na forma como o olho vê a cor.
Essa breve reflexão surge a respeito do impacto estético das telas de Clóvis Júnior. A intensidade de suas cores chama a atenção pela criação de massas visuais separadas por contornos finos. O recurso dá aos seus trabalhos grande leveza e as figuras parecem flutuar no espaço nas mais diversas situações.
O trabalho de Clóvis com a cor é mais importante do que o desenho ou a escolha da temática. Estas duas podem nos enganar à primeira vista, mas é nas soluções cromáticas que o artista, nascido na Guarabira, Estado da Paraíba, e radicado em João Pessoa, encanta. Desde a sua estréia, aos 18 anos, em 1983, soluciona plasticamente suas composições pelas distribuição colorística harmoniosa e agradável à vista.
Grupos de pessoas em ocasiões de festas populares, como bumba-meu-boi ou as comemorações de junho, mostram o uso de tonalidades quentes, em nuances de vermelho, amarelo e laranja, principalmente. Esse tipo de trabalho com o uso de cores plenas aproxima decisivamente o artista paraibano da chamada arte naïf, realizada por artistas geralmente autodidatas que expressam, cada qual a seu modo, a própria visão de mundo.
O recurso muito comum em Clóvis da justaposição de imagens encontra também seu esteio pictórico na cor. Ao utilizar o acrílico sobre tela, consegue dar um brilho ao seu trabalho que o torna encantador, marcadamente para o público internacional, que se fascina pelos contrastes utilizados na composição de temas para eles exóticos, como o cangaço, ou clássicos, como uma Santa Ceia.
Graficamente, um aspecto a destacar na poética de Clóvis são as árvores. Suas formas retorcidas são utilizadas habilmente na construção das telas, auxiliando a criar atmosferas equilibradas. Mesmo quando seus galhos dão numerosas voltas em torno de si mesmas, elas não perdem a leveza, sugerindo um sutil movimento ascencional.
A festa de cores proposta pela arte de Clóvis Júnior, portanto, ultrapassa os aspectos físico/óptico e fisiológico/visual, atingindo a esfera da sensível matéria pictórica. A sua cor atinge a alma do observador pelo impacto visual causado e pela maneira como as formas estilizadas interagem com uma plenitude de cores que fala profundamente, pois está impregnada de densa humanidade.